Belém enfrenta os inimigos da cobertura verde
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Mais de 80% dos pedidos para derrubar árvores são rejeitados
Necessária para reduzir o calorão equatorial dos próximos meses, a cobertura verde de Belém enfrenta agora a sanha dos que querem se livrar das árvores. A Secretaria de Municipal de Meio Ambiente (Semma) informa que mais de 80% dos pedidos de retirada de árvores que chegam à secretaria não se sustentam. "As causas mais frequentes são a calçada quebrada pelas raízes ou o aparecimento de lagartas, por exemplo. O papel da Semma é conscientizar a população de que ela precisa do verde", diz a diretora do Departamento de Áreas Verdes da Semma, Simone Brito, ao explicar que é frequente os técnicos da secretaria negarem o pedido de cortes já no local de onde partiu o chamado para a vistoria. Retiradas de árvores só são indicadas em último caso. "Geralmente a pessoa vê que a calçada começou a quebrar e pensa que já tem que retirar a árvore, acreditando que ela pode ser uma ameaça para a casa. Outro caso comum também é na construção de condomínios. A construtora faz o prédio e quando chega a hora de inaugurar, quer chamar a Semma para retirar a árvore porque está atrapalhando a fachada. Não pode ser assim", pondera a diretora.
Um dos poucos casos em que os técnicos da Semma recomendam a retirada de uma árvore é quando se trata de problemas com as raízes da Ficus Benjamina, o Ficus, um espécime alienígena na região e que está por quase toda a cidade, na frente de residências e prédios comerciais. É popular por se prestar a fins decorativos, assumindo os mais variados desenhos, de acordo com o desejo do proprietário do imóvel. Os transtornos começam porque as raízes da árvore se estendem à procura de água. "Ela não para e vai destruindo o que encontrar pelo caminho: calçada, o piso das casas, o que tiver", explicou Simone Brito.
Em Belém, a retirada de árvores precisa ser autorizada pela Semma, que avalia se ela representa algum risco às pessoas. Derrubar árvores por conta própria é passível de notificação e autuação pela Semma, com multas de até R$ 10 mil. O valor depende do tipo de árvore derrubada. Espécies protegidas como mangueiras e samaumeiras custam mais caro. Se o infrator é reincidente, o valor também aumenta.
Após o relato à Semma, o processo até a vistoria pode demorar até dois meses. O tempo depende do tipo de vegetal. Os protegidos ou que exigem mais atenção, como mangueiras centenárias, são verificados mais rápido.
MORCEGOS
A doceira Maria de Belém Melo conta que uma castannhola (Terminalia Catappa) plantada no canteiro central da rua onde mora, no Telégrafo, ameniza o calor. "Muitos gostam de estacionar seus carros ao pé da árvore, por causa da sombra", observa, ressalvando que a árvore começa a causar transtornos: os galhos quase cobrem a largura da rua, há acúmulo de folhas secas e frutos no chão e, o que mais assusta a família, morcegos começam a ocupar a árvore, que fica no terreno da casa da família. Restos de frutas ao pé da árvore são sobras das refeições. E os morcegos já começam a invadir a casa. "Outro dia meu sobrinho matou um na cozinha. Minha irmã pensou que era uma aranha caranguejeira na parede, mas era um morcego e se assustou. Estamos preocupados porque a casa tem crianças", diz a doceira, que já pensa em chamar os técnicos da Semma para tentar afastar os morcegos.
Antes de plantar uma árvore, é importante ter informações sobre as características da espécie e a que tipo de local ela pode se adequar. Morar em uma casa cercada de árvores sempre foi o sonho de Olga Melo, desejo só realizado há 50 anos, quando ela se mudou com a família para uma casa na Vila dos Bancários, no Telégrafo, em Belém. A rua onde mora a dona de casa tem um clima ameno por causa da vasta cobertura vegetal. Na frente da casa dela há um Ficus, há seis anos sem apresentar problemas. "Gosto dela por causa da sombra. Quando ela ficar maior, vai dar para colocar umas cadeiras aqui na frente da casa, de tarde, e ficar conversando. Sempre tem que ter árvore na porta de casa", diz Olha que, aos 90 anos, mora em uma casa cercada pelo verde, de pequenas árvores e arbustos a plantas de várias espécies.
PARQUES
Os parques ambientais também são responsáveis por amenizar o clima em alguns pontos de Belém. A Semma administra três parques na capital: o Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves e os parques ecológicos do Médici e de Mosqueiro. O Rodrigues Alves é, sem dúvida, o que recebe o maior número de visitantes. São cerca de seis mil visitantes por semana. Os portões só se fecham para a visitação às segundas-feiras, para manutenção.
No Rodrigues Alves há cerca de 30 espécies da fauna e mais de 300 da flora amazônica. São 15 hectares de área verde numa área central da capital paraense, cercada por concreto. Inaugurado em 1883, o Bosque sente os impactos da modernidade, especialmente nas bordas, as áreas mais próximas aos muros, e dos transtornos do fluxo intenso de veículos. "A trepidação do trânsito leva ao tombamento das árvores da borda. Com as bordas livres, outras podem tombar. É por isso que, nas bordas do Bosque, a temperatura é mais elevada. Além da trepidação, essas árvores estão mais expostas também à poluição dos veículos, que provoca o aparecimento de fungos", destacou o diretor do Departamento de Gestão de Áreas Especiais da Semma, Paulo Altieri. Quem anda pelo Bosque percebe facilmente a diferença de temperatura entre as áreas mais próximas aos muros e as áreas mais centrais.
Apesar da manutenção feita pela equipe técnica do Bosque, a queda de árvores por causa da trepidação é inevitável. "Nós procuramos fazer o replantio das espécies e a poda para manter o equilíbrio das árvores. A vigilância é constante", explicou Altieri.
Quem frequenta o Bosque enumera os benefícios de se passar algum tempo lá dentro. Professor de karatê e meditação, Eurico de Oliveira Santos, conta que não abre mão das visitas diárias ao local. "Venho para me exercitar há três meses. Sinto os benefícios tanto física como psicologicamente. Venho e fico, no mínimo, uma hora para desfrutar dessa integração com a natureza", contou, afirmando que vai ao Bosque cinco vezes por semana.
Os parques ecológicos do Médici e de Mosqueiro têm áreas bem maiores que a do Bosque. O parque do Médici, na Marambaia, tem 44 hectares. O de Mosqueiro tem 190 ha. Apesar de maiores, os dois parques ainda são bem menos visitados e precisam do plano de manejo que está sendo elaborado pela Semma. O Plano fará o mapeamento da área dos parques. As visitas já são permitidas. "O plano de manejo é a base de toda a gestão da área. Hoje mantemos uma base fixa para referência, fiscalização sistemática e equipe mínima", afirmou Altieri. |
terça-feira, 21 de maio de 2013
REPASSANDO: Belém enfrenta os inimigos da cobertura verde
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